Investir melhor

Riscos de investir em ações – Conheça os principais riscos

Todos os investimentos envolvem riscos, investir em ações não é exceção. Quando pretendemos fazer um investimento, seja de que tipo for, temos de estar conscientes dos riscos associados, e comparar os mesmos com os ganhos esperados. Se eventualmente os riscos percecionados forem inferiores aos ganhos esperados, com um rácio generoso, então estamos perante um investimento com potencial!

Existe o mito de que quanto mais arriscado for um investimento, maior o potencial de retorno. Não caia nesse erro. Um investidor inteligente, procura ativos com uma relação assimétrica entre risco e retorno, ou seja, investe em negócios com baixo risco e elevado potencial de retorno. A melhor forma de conseguirmos uma relação assimétrica entre risco e retorno, é investirmos em ativos que estejam em determinado momento com um valor de mercado inferior ao seu valor intrínseco, nomeadamente em momentos de elevado pessimismo nos mercados, provocados por eventos externos às empresas, mas que afetam o mercado como um todo.

Já por aqui falei (algumas vezes) de um dos meus princípios de investimento: não investir num tipo de ativo ou empresa que eu não consiga compreender. Conhecermos quais os riscos de investir em ações, antes mesmo de iniciarmos a nossa jornada de investidores na bolsa de valores é um passo fundamental que poderá ditar de forma decisiva o sucesso das nossas opções de investimento.

 

A origem do termo Risk é derivado do Português. O termo “risk” surgiu nos séculos XVI e XVII e é provável que tenha derivado do Espanhol ou do Português, onde era usado para se referir à incerteza inerente à navegação em águas desconhecidas. A partir do século XVI foi associado ao termo “risk” um sentido positivo, referindo-se a oportunidades de negócio como, por exemplo, com o significado de “ousar, empreender um negócio e aspirar ao sucesso económico.

 

Sem mais demoras, vamos então saber quais os principais riscos que os investidores enfrentam no investimento em ações:

 

Risco Sistémico (ou de mercado)

Como o próprio nome indica, este é o risco que envolve o sistema como um todo. Como envolve todo o “sistema”, não pode ser eliminado. Todas as empresas que fazem parte do sistema estão expostas a este risco, e dessa forma os investidores em ações também o estão.

Ao longo das duas últimas décadas assistimos a dois grandes acontecimentos que afetaram o mercado financeiro como um todo: a crise financeira de 2008 e este ano (2020) a pandemia do Covid-19. Independentemente do tipo de ação, e do setor da empresa, o resultado foi o mesmo: todos os investidores viram os seus portfólios desvalorizar consideravelmente, independentemente da bolsa de valores em que as ações estavam cotadas (S&P500, Nasdaq, NYSE, PSI 20, Nikkei 225, etc.). Existiram alguns setores de atividade menos afetados por estas crises, mas de uma forma ou de outra todos sofreram fortes desvalorizações.

→ Como nos podemos protegermos do risco sistémico? A mensagem principal a reter é: não é possível anular o risco sistêmico no investimento em ações. Querendo ou não, estamos sempre sujeitos a ele.

 

Risco Não Sistémico

O risco não sistémico é um risco que não está relacionado com o sistema como um todo. No entanto, é um risco que tanto pode afetar uma única empresa como um setor de atividade inteiro.

Vamos imaginar que existe uma subida repentina do preço do petróleo para níveis recorde. Este acontecimento vai fazer com que as empresas que usem de forma intensiva este tipo de recurso, vejam o custo da sua atividade aumentar significativamente, afetando assim a sua margem de lucro. Este acontecimento pode ser prejudicial para algumas empresas, como por exemplo as companhias aéreas, no entanto irão existir setores de atividade que não serão tão afetados, como por exemplo os produtores de carros elétricos ou as empresas ligadas ao setor das energias renováveis.

Existe também a possibilidade de existir riscos não sistémicos que podem afetar em particular uma única empresa, ou seja, o risco decorrente de fatores próprios e específicos de cada organização. Por exemplo, se uma empresa está muito endividada, e se por alguma razão (ex: quebra nas vendas) deixa de ter a capacidade para fazer face ao serviço da dívida, muito provavelmente, vamos ver o preço das ações se deteriorar. Mas, o facto de esse problema ter acontecido, não vai trazer impacto para as outras empresas, nem para o setor onde a essa empresa se insere. Assim, o risco de a empresa não conseguir liquidar as suas dívidas, não é sistémico, porque envolve apenas a empresa. É precisamente por esta razão que conseguimos diminuir (e não anular) o risco não sistêmico.

→ Como nos podemos proteger do risco não sistémico? A melhor forma para reduzir o risco não sistémico é através da diversificação dos investimentos. Não apenas diversificar o número de empresas em que estamos investidos, mas também diversificar por setores de atividade, geografias e outros tipos de ativos.

 

(Para saber mais sobre diversificação, recomendo que leia o artigo como diversificar corretamente os investimentos)

 

Risco de Inflação

Aproveitando a explicação dada pelo Banco Central Europeu, podemos caracterizar o fenómeno da inflação da seguinte forma: “Numa economia de mercado, os preços dos bens e serviços podem sempre mudar. Alguns preços sobem, outros descem. Fala-se de inflação quando se verifica um aumento geral dos preços dos bens e serviços e não quando apenas os preços de artigos específicos sobem. O resultado é que se compra menos com um euro. Por outras palavras, um euro vale menos do que anteriormente.”

Historicamente o investimento em ações, é o tipo de investimento que melhor tem remunerado o capital. No entanto, a inflação deve ser tida em conta, no momento de analisar o desempenho real dos seus investimentos, ou seja, subtrair à taxa de rentabilidade bruta a taxa de inflação.

A inflação é um dos riscos mais destacados entre os investidores, já que se a taxa de inflação for maior à taxa de rentabilidade do nosso investimento, estamos na realidade a perder dinheiro. Isto é o que acontece atualmente com os depósitos a prazo. A maioria dos depósitos a prazo têm rentabilidades reais negativas, uma vez que atravessamos um período de baixas de taxas de juro. A taxa de inflação registada nos últimos anos em Portugal tem sido baixa, mesmo assim é superior às taxas de juro dos depósitos a prazo. Se em 2019 teve o seu dinheiro aplicado num depósito a prazo a render a uma taxa de juro inferior a 0,3%, na realidade perdeu dinheiro, i.e., perdeu poder de compra.

→ Como nos podemos proteger do risco da inflação? Não é possível eliminarmos o risco da inflação no investimento em ações, no entanto sabemos que historicamente as ações são o ativo que melhor tem remunerado os investidores. Devemos ter consciência da taxa de inflação, de forma a compreendermos qual é o ganho real que os nossos investimentos nos proporcionam, num determinado período.

 

Risco de Liquidez

Para compreendermos de que forma este risco pode influenciar os nossos investimentos, temos de saber primeiro o que é a liquidez. A Liquidez é a capacidade de um determinado ativo ser convertido em dinheiro. Quanto mais fácil e rápido for possível transformar um ativo em dinheiro, sem perda substancial do seu valor, maior a sua liquidez. É por isso que dizemos que um imóvel é um ativo de reduzida liquidez. Se necessitarmos de o vender, não o conseguiremos fazer de forma rápida e célere (pelo menos sem perder dinheiro). Por contrapartida as ações são um ativo de elevada liquidez (se tomar os devidos cuidados), caso precise de as vender, conseguirá converter em dinheiro de forma rápida e fácil.

Nas ações o risco de liquidez surge no momento de fechar (vender) uma determinada posição, ou parte dela. Algumas ações (ou seja, empresas) têm uma baixa capitalização bolsista (valor total das ações negociáveis da empresa), e por essa razão, quando pretender vender as suas ações, pode não encontrar (rapidamente) um potencial comprador para o preço a que quer vender. Por este motivo, na hora de investir devemos conhecer o volume de capitalização da empresa, uma vez que não é o mesmo investir numa empresa de grande capitalização (ex: Apple, Google, Amazon, etc.) ou numa empresa com uma baixa capitalização (penny stocks).

Devemos também analisar a diferença (spreed) entre o preço de compra (Bid) e o preço de venda (Ask). Quando maior o spreed, mais baixa será a liquidez da ação.

→ Como nos podemos proteger do risco de Liquidez? A forma ideal para se proteger deste risco é adicionar à sua checklist de verificação, a capitalização bolsista da empresa e o volume médio por sessão. Um dos pontos fortes do mercado americano é a altíssima liquidez, numa sessão diária as ações tocam de mãos a uma velocidade vertiginosa.

 

Risco das Taxa de Juros

As taxas de juros conseguem influenciar de duas formas os investimentos em ações.

A primeira forma está relacionada com o custo de oportunidade. Quando as taxas de juro aumentam, e por essa razão ficam mais atrativas, os investidores são atraídos a colocar parte do seu capital em ativos que geram um rendimento fixo (ex. depósitos a prazo), e que são também mais seguros. Portanto, quando há um aumento das taxas de juro, existe uma movimentação do capital dos investidores dos ativos mais voláteis (ex. ações) para as aplicações de rendimento fixo e por isso menos voláteis. Desta forma os preços das ações são pressionados no sentido descendente.

A segunda forma, em que as taxas de juro influenciam o investimento em ações, está relacionado com a sensibilidade de algumas empresas e setores às taxas de juro. Por exemplo, empresas do setor do retalho tendem a recorrer com mais frequência à banca para se financiarem. Com o aumento das taxas de juro, aumenta também o serviço da dívida, e, por conseguinte, diminui a rentabilidade da empresa.

→ Como nos podemos proteger do risco das taxas de juro? Neste caso o ideal é procurar diversificar os seus investimentos, de forma a não ter uma elevada exposição a setores que tenham uma maior sensibilidade ao valor das taxas de juros.

 

Risco Político/Legislativo

Existem alguns setores de atividade que são altamente regulados (ex: indústria do tabaco), e por essa razão estão mais expostos aos riscos políticos ou de mudanças legislativas. Essas alterações podem implicar consequências negativas para as empresas e por essa razão é importante percebermos de que forma o setor de atividade ou empresa em que pretendemos investir pode ou não ser afetado por alterações políticas.

Um bom exemplo é o caso das empresas farmacêuticas. Como sabemos os preços dos medicamentos são um tema muito sensível em termos políticos e sociais, sendo habitual existir pressão política sobre algumas empresas farmacêuticas, com patentes em medicamentos que tratam doenças que afetam uma grande parte da população mundial. Com a pressão para a redução de preços, as receitas e lucros das empresas farmacêuticas são muitas vezes afetados.

→ Como nos podemos proteger do risco político? A melhor forma de nos protegermos do risco político é compreendermos de que forma as empresas em que estamos investidos estão expostas às decisões políticas. Não sendo possível eliminar este risco por completo, podemos diversificar os nossos investimentos de forma a não nos expormos em demasia a setores altamente regulados.

 

Risco de Preço

Um dos maiores medos dos investidores, há menos tempo no mercado, é o receio de uma correção ou queda do mercado (‘Crash’), e com isso verem o valor dos seus portefólios de investimento diminuírem de forma abrupta de um momento para o outro. O mercado de ações é muito volátil, e por essa razão o valor dos seus investimentos irá muito provavelmente flutuar de forma contínua. Quando existe maior incerteza no mercado, as flutuações de preços podem ser bastante acentuadas, provocando muitas vezes algum pânico entre os investidores. Enquanto detentor de ações, você estará, portanto, sujeito a um risco de preço, e como consequência ver o seu investimento perder valor.

São diversos os fatores que originam a volatilidade nos preços dos títulos. Alguns desses fatores são racionais, outras vezes são apenas emocionais. É importante estudar muito bem a empresa em que pretende investir, de forma a saber quais os motivos e vantagens que identificou, e que justificam o investimento que realizou ou pretende realizar. Se essas vantagens se mantiverem válidas, mesmo que o preço da ação possa ter diminuído, não existe (aparentemente) nenhum motivo para vender as ações.

→ Como nos podemos proteger do risco de preço? Dispersar os seus investimentos pode reduzir parcialmente este risco. Ter também a capacidade para reconhecer padrões no mercado, e compreender que as quedas nos preços fazem parte das regras do “jogo”.

 

(Para saber mais sobre o risco de preço, recomendo que leia o artigo como combater o medo de uma correção ou queda no preço das ações)

 

Conclusões

Não é possível falarmos em investimentos, sem falarmos também em riscos. Para além dos riscos discutidos ao longo deste artigo existem muitos outros, que também deve ter em conta, nomeadamente os riscos menos habituais como ataques terroristas, catástrofes naturais, guerras comerciais, pandemias, etc.

Os riscos inerentes ao investimento em ações, como vimos, podem ser de vários tipos, temos de estar conscientes que não é possível eliminar totalmente um risco, no entanto, é possível, reduzir e gerir os mesmos, e é nesta última parte da equação que os investidores devem colocar o foco. Assim, deve conhecer bem a empresa em que pretende investir, saber quais os riscos a que se está a expor com esse investimento em específico e tomar as medidas necessárias para gerir da melhor forma a sua exposição a determinados riscos, nomeadamente através da diversificação e do conhecimento.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *