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Rácios para analisar uma ação – Conheça os rácios mais importantes

Um dos fatores decisivos nos investimentos em ações é a simplificação do processo de análise. Assim importa sabermos para onde deveremos direcionar o nosso foco sabendo identificar quais os principais rácios para analisar uma ação.

Quando um pequeno investidor inicia a sua pesquisa sobre como investir em ações, rapidamente é confrontado, por uma infinidade de termos, rácios e indicadores, com nomes dificílimos de compreender e de memorizar, ao estilo de Wall Street.

Os rácios e termos financeiros mais usados nos investimentos em bolsa, numa primeira análise, podem parecer algo que nunca iremos conseguir compreender, uma vez que aparentam ser desenhados apenas para que uma pequeníssima parte da população mundial os consiga compreender. No entanto, quero que fique desde já com a ideia, de que com um pouco de dedicação e estudo, rapidamente esse vocabulário fará parte de uma linguagem que também conseguirá entender e dominar.

 

Neste artigo vamos abordar os seguintes tópicos:

  • 10 rácios importantes para analisar e compreender uma ação
  • Qual o significado de cada rácio e como encontrar/calcular
  • Como utilizar cada um deles para selecionar uma ação

 

Os rácios podem ser subdivididos em várias categorias, tais como: rácios de preços, de eficiência, de análise de dividendos, risco financeiro, etc. Estes rácios são muito importantes para compreender se uma determinada empresa está no caminho certo. Compreender cada um destes rácios, irá permitir que evite investir em ações que o irão fazer perder dinheiro, e por outro lado, conseguir escolher os melhores investimentos disponíveis.

Saber como analisar uma ação, é  um tema que tem de dominar caso pretenda investir o seu dinheiro na bolsa de valores.  Sem mais demoras, vamos conhecer 10 rácios muito importantes, para analisar uma empresa.  Irei usar os dados atuais da Apple (há data em que este artigo foi escrito), para exemplificar cada um dos rácios/indicadores.

 

Como utilizar os rácios financeiros para analisar uma ação e identificar oportunidades de investimento

Ao analisarmos os rácios ou indicadores financeiros, de forma isolada, pouca informação conseguimos retirar. Quando estamos a analisar os rácios e indicadores de uma empresa precisamos de contextualizar os resultados obtidos. Assim para analisar corretamente um rácio devemos:

  1. Comparar com o histórico da própria empresa
  2. Comparar com outras empresas do mesmo setor (e idealmente da mesma geografia)

 

A comparação de rácios deve ser feita entre empresas do mesmo setor. Por exemplo, comparar os rácios financeiro da Apple, empresa tecnológica, com os rácios da General Motors, empresa de consumo cíclico (indústria automóvel), não faz qualquer sentido, estamos a analisar negócios totalmente distintos que sofrem influencias distintas na sua atividade. Portanto, a comparação com outras empresas só faz sentido se for entre empresas do mesmo setor.

Para além da necessidade de contextualizamos os rácios com o setor de atividade, é muito importante termos uma perspetiva histórica dos valores apresentados, pela empresa em anos anteriores. 

 

10 rácios importantes para analisar e compreender uma ação

 

1 – Price-to-Earnings (P/E)

O price to earnings, em português preço sobre os lucros, mede a relação entre o preço atual de uma ação sobre os lucros gerados pela empresa. Por exemplo, para uma empresa com um P/E de 15, sabemos que por cada 15€ gastos a comprar uma ação, esperamos receber 1€ de lucro um ano depois.

Para calcular este rácio basta dividirmos o preço da ação (1 – cotação) pelo lucro por ação (2- EPS).

Na imagem abaixo, retirado do site Yahoo Finance, poderá encontrar toda a informação que necessita par obter a informação do preço sobre o lucro.

Analisando a Apple, verificamos que atualmente as ações estão a transacionar com um P/E de aproximadamente 28. Quer isto dizer que por cada 28 dólares gastos a comprar uma ação, esperamos receber 1 dólar de lucro daqui a um ano (isto, se tudo se mantiver constante).

 

 

Ainda através do site Yahoo Finance, no separador “Statistics” podemos ter uma perspetiva histórica deste rácio.

 

 

2 – Price-to-Sales (P/S)

O rácio Price-to-Sales (P/S), em português Preço sobre as Vendas, avalia a relação entre o preço da ação e receitas (vendas). Este é um indicador que nos diz quanto esperamos obter de vendas por cada euro gasto a comprar uma ação. Por exemplo, para uma empresa com um P/S de 4, sabemos que para cada 4€ gastos a comprar a ação, esperamos 1€ de vendas um ano depois.

Para calcular este rácio basta dividirmos o preço da ação (cotação) pelas vendas por ação (vendas do ano a dividir pelo número total de ações).

Através do site Yahoo Finance, no separador “Statistics” podemos ter uma perspetiva histórica deste rácio.

No caso da Apple, conseguimos averiguar que no primeiro trimestre de 2019 este rácio apresentava um valor bastante mais baixo do que atualmente. Este é um sinal de que a empresa está a transacionar a um preço mais elevado, ou seja, pode estar sobreavaliada.

Para o preço a que a Apple está atualmente a transacionar (353,63$), verificamos que o rácio preço sobre as vendas é de 6,12. Assim, por cada 6,12 dólares a comprar uma ação da Apple esperamos 1 dólar de vendas um ano depois.

 

 

3 – Price-to-Book (P/B)

O rácio Price-to-Book, em português preço sobre o valor contabilístico, é usado para comparar a capitalização bolsista (ou valor de mercado) com o valor contabilístico da empresa. O valor contabilístico não é mais do que o valor de todos os ativos da empresa, menos os passivos.

Para calcularmos este rácio basta dividirmos o preço da ação (cotação) pelo valor contabilístico por ação. Um rácio P/B mais baixo pode significar que a empresa está subvalorizada, no entanto, também pode indicar que algo não está bem com a empresa. Tal como os outros rácios, este varia de setor para setor, pelo que deve ser analisado no contexto histórico da empresa, assim como comparativamente ao valor do rácio do setor e dos seus concorrentes.

O rácio P/B também indica se estamos a pagar demasiado, face ao que restaria caso a empresa entrasse em insolvência.

Para encontrarmos o valor deste rácio, podemos usar a ajuda do Yahoo Finance, que faz o cálculo por nós. Na imagem abaixo, exemplifico como pode encontrar o valor para este rácio.

Usando novamente o exemplo da Apple, verificamos que no final de 2019, a empresa estava a transacionar a 14 vezes o seu valor contabilístico.

 

 

4 – Enterprise Value-to-Sales (EV/S)

O Enterprise Value-to-Sales é um rácio de avaliação que permite comparar o valor da empresa (Enterprise Value) relativamente às suas vendas (receitas). Este rácio dá aos investidores uma métrica quantificável sobre quanto cada investidor tem de pagar pela empresa por cada dólar em vendas.

Para calcular este rácio necessitamos de dividir o valor da empresa pelas vendas anuais. O valor da empresa, por sua vez, corresponde ao valor de mercado das ações (Capitalização Bolsista) menos o dinheiro no balanço da empresa, mais as dívidas de longo prazo.

Este rácio pode por vezes ser um pouco enganador. Um EV/S elevado poderá ser um sinal de que os investidores acreditam que as vendas futuras possam aumentar significativamente, por outro lado um EV/S baixo, pode significar perspetivas para as vendas futuras mais desanimadoras.

Para encontrarmos o valor deste rácio, podemos usar a ajuda do Yahoo Finance, que já fez o cálculo por nós. Na imagem abaixo, exemplifico como pode encontrar o valor para este rácio.

 

 

5 – Return on Equity (ROE)

O rácio Return on Equity (ROE), em português lucro sobre o capital próprio, calcula-se dividindo o resultado líquido (Net Income) pelo Capital Próprio (Shareholders Equity). Este é um rácio de gestão, que permite avaliar se a empresa está a ser bem gerida, ou seja, se os gestores estão a conseguir usar o mínimo de recursos possíveis para produzir o máximo de retorno para os acionistas.

Este rácio indica-nos, então, como os gestores estão a saber fazer crescer o capital próprio, e dessa forma o valor intrínseco da empresa. Por outras palavras, o ROE é considerado uma medida do quão efetivamente a administração está a utilizar os ativos da empresa para gerar lucros.

Idealmente eu procuro empresas com um ROE acima dos 10% ao ano.

Para encontrarmos o valor deste rácio, assim como para obtermos uma perspetiva histórica, utilizei a secção dos “Key Ratios” do website Morningstar.com

No caso da Apple, podemos averiguar que a empresa tem conseguido, ao longo dos anos, ganhos extraordinários para os acionistas. Em 2019 a empresa conseguiu uma rentabilidade dos capitais próprios de 55.92%.

 

 

Nota: Para encontrar esta informação, abra o website www.morningstar.com, escreva o nome da ação que quer pesquisar, na caixa de pesquisa do menu, do lado esquerdo. Depois de abrir a página de análise da ação, no separador “Quote” clique em “Key Ratios” e depois em “Full Key Ratios Data”.

 

6 – Margem Operacional

A margem operacional não é mais do que a percentagem das vendas que sobra depois de pagar todos os custos para que o negócio possa funcionar. A melhor forma de medir o quão bem gerida é uma empresa, é converter as vendas em lucro para os investidores.

A margem operacional é um rácio de eficiência, que mede a capacidade da empresa em utilizar os seus ativos para gerar rendimento. Este tipo de informação é muito útil para os investidores, uma vez que uma melhoria no valor deste rácio, normalmente traduz-se em mais lucro para a empresa.

A margem operacional calcula-se dividindo o lucro operacional pelas receitas totais, ou seja, Operating Profit/Total Revenue.

As empresas que conseguem obter mais lucro das suas vendas, irão ter mais market share (quota de mercado), crescer mais rápido e poderão gerar melhores retornos para os seus acionistas.

Para encontrarmos o valor deste rácio, assim como para obtermos uma perspetiva histórica, utilizei a secção dos “Key Ratios” do website Morningstar.com

Em 2019 a Apple conseguiu obter uma margem operacional de 24,6%, no entanto se compararmos com a Microsoft a percentagem ficou um pouco aquém, uma vez que a Microsoft registou uma margem operacional de 34,14%.

 

 

7 – Payout Ratio

Já por aqui falei várias vezes deste indicador. Para uma estratégia focada no recebimento de dividendos, este é um indicador essencial para compreender qual o posicionamento da empresa em relação à distribuição dos lucros pelos acionistas.

O Payout Ratio representa a percentagem dos lucros da empresa que será necessária para pagar o dividendo anual. Este rácio mede também a sustentabilidade dos dividendos, quanto a empresa irá manter para reinvestir no seu crescimento e o potencial que os dividendos têm para crescer nos anos seguintes.

Empresas com um Payout elevado ficam sem recursos financeiros para investir em si mesmas, e por essa razão tendencialmente (ou por norma) crescem menos do que as empresas que reinvestem mais em si próprias. Por outro lado, as empresas com um Payout Ratio baixo, são empresas que podem crescer a taxas superiores. Vejamos o exemplo da Apple, em 2020 o Payout estimado da empresa é de 24%, sendo que só recentemente (em 2013) é que a empresa começou a pagar dividendos aos seus acionistas, no entanto, o Payout Ratio é relativamente baixo, oscilando entre 22,3% em 2015 e 28,5% em 2014. A empresa prefere reinvestir os lucros na expansão da atividade, e tem conseguido aumentar consideravelmente o seu valor intrínseco, e isso tem se refletido na boa performance da empresa, e como consequência as ações da Apple têm-se valorizado significativamente ao longo dos anos.

Para calcular o Payout ratio basta dividir o valor do dividendo por ação pelo preço (cotação da ação).

 

 

Nota: O Payout Ratio ou o Price-to-Earnigs não devem ser usados para analisar fundos de investimento imobiliários (REITs). Para este tipo de investimento existem outras métricas mais adequadas para medir o cash flow.

 

8 – Debt-to-Equity

O Debt-to-Equity Ratio representa o montante de alavancagem financeira na estrutura de uma determinada empresa. Será que a empresa tem a capacidade de gerar dinheiro suficiente para pagar as suas dívidas de forma sustentável para o negócio?

O rácio Debt-to-Equity calcula-se dividindo o total do passivo pelo seu capital próprio (património líquido). Estes dados podem ser encontrados no balanço patrimonial da empresa (Balance Sheet).

É importante notarmos também que a divida de uma empresa não é necessariamente má, uma vez que pode ser usada para potenciar o crescimento da mesma, por exemplo através do financiamento de novos investimentos. Temos de ter em atenção também o facto de muitas empresas se financiarem através da venda de novas ações, o que significa que isso irá diminuir o ganho dos atuais acionistas. Uma empresa com pouca dívida, mas que está constantemente a aumentar o número de ações disponíveis no mercado, poderá representar um mau investimento.

Este é um dos indicadores usados por Warren Buffet, para medir a saúde financeira de uma empresa. Warren Buffet tem preferência por empresas com um rácio Debt-to-Equity inferior a 0,5. Por outras palavras, por cada 10€ em capital próprio a empresa deverá ter apenas 5€ em dívida.

No caso da Apple, no último trimestre, por cada dólar em capital próprio a empresa apresentava 1,14 de dívida.  

 

 

9 – Crescimento do Fluxo de Caixa Operacional

O mapa de cash-flow (Cash Flow Statement) é um mapa financeiro que representa as entradas e saídas de dinheiro da empresa, da atividade operacional, de investimento e financeira. A importância deste mapa para os investidores, consiste na maior dificuldade, de a empresa conseguir manipular estes dados, quando comparado com a demonstração de resultados (income statment). Assim, podemos dizer que o mapa de cash-flow é uma foto mais real da empresa.

A primeira parte do mapa de cash-flow, está relacionada com a atividade operacional da empresa, e demonstra a quantidade de dinheiro que a empresa consegue gerar da sua atividade principal.

Com este indicador (Crescimento do Fluxo de Caixa Operacional) queremos apurar como se comportou os fluxos de caixa da atividade principal da empresa nos últimos anos, para isso calculamos a taxa de crescimento anual, para um dado número de anos.

Para calcular a taxa de crescimento anual, usamos a seguinte fórmula:

((Valor Recente/Valor Passado)^1/(nº Períodos))-1

 

No caso da Apple, vamos considerar os anos de 2016 a 2019, e perceber qual o crescimento registado durante este período. Assim temos: ((69,39/65,82)^(1/3))-1= 1,776%.

Assim, podemos concluir que nos últimos 3 anos a Apple registou um aumento anual de 1,776% dos fluxos de caixa gerados pela atividade operacional.

 

 

10 – Crescimento do Resultado Líquido

O Resultado Líquido (Net Income) representa os lucros de um negócio depois de subtraídos todos os custos e impostos. O valor do resultado líquido de uma empresa, num determinado ano, pode ser encontrado na parte final da demonstração de resultados (Income Statment).

Neste sentido, queremos apurar qual o crescimento anual do resultado líquido da Apple. Vamos considerar um período de 3 anos para a nossa análise, no entanto faz sentido analisar também um período mais amplo. Assim temos: ((55,26/45,69)^(1/3))-1= 6,54%

A Apple nos últimos 3 anos registou um aumento anual, no resultado líquido de 6,54%, no entanto, em termos de fluxo de caixa da atividade operacional o crescimento anual foi bastante inferior, apresentando um crescimento de apenas 1,78%. Isto quer dizer que apesar do crescimento dos lucros da atividade, a Apple não conseguiu, no mesmo período, gerar o mesmo crescimento anual em dinheiro, resultante da atividade operacional.

Estes últimos dois indicadores, não significam necessariamente que a Apple esteja num mau caminho, no entanto, é importante monitorizarmos estes dados ao longo do tempo, de forma a percebermos se um aumento dos lucros, se traduz também num aumento dos fluxos de caixa da empresa, ao longo do tempo. Se verificarmos sucessivamente que o resultado líquido cresce a taxas muito superiores aos fluxos de caixa da atividade operacional, podemos estar perante um caso, em que os lucros são inflacionados, através de pequenos truques contabilísticos.

Idealmente queremos que estas duas taxas de crescimento sejam positivas e semelhantes, se assim for, sabemos que o crescimento dos rendimentos se traduz em crescimento do dinheiro gerado pela atividade principal da empresa.

 

 

Conclusões

Existem muito rácios e indicadores que podemos utilizar para compreendermos melhor uma ação/empresa. Os rácios descritos ao longo deste artigo, são fáceis de calcular/encontrar e permitem-nos ter uma visão mais aprofundada sobre o contexto histórico e atual de uma determinada empresa, permitindo analisar questões como a valorização da empresa, rentabilidade, endividamento, e crescimento da atividade.  Para analisarmos um rácio, devemos contextualizá-lo ao nível do setor de atividade em que a empresa está inserida, assim como ao nível do histórico da própria empresa. Analisar um rácio de forma isolada, apenas nos transmite uma pequeníssima informação sobre o universo complexo de uma empresa.

 

 

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