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O que são os dividendos de uma empresa?

Ganhar dinheiro na bolsa de valores não se limita apenas às mais-valias decorrentes da valorização das ações/títulos que temos em carteira. Comprar barato e vender caro é uma das formas de lucrar com o investimento em ações, mas não podemos diminuir a importância que os ganhos com dividendos representam para os acionistas.

Neste artigo, vamos focar-nos em compreender o que são os dividendos, como se distribuem os lucros da empresa pelos acionistas, como podemos determinar se uma empresa paga bons dividendos e ainda conhecer as principais vantagens e desvantagens em investirmos com foco nos dividendos.

 

O que são dividendos?

Os dividendos não são mais do que a distribuição de parte do lucro de uma empresa pelos seus acionistas (detentores de ações). As empresas não estão obrigadas a distribuir os seus dividendos (salvo a exceção de empresas sediadas em alguns países, onde é definida uma percentagem mínima obrigatória para distribuição de lucro), pelo que algumas empresas não o fazem, e utilizam os lucros de um determinado exercício económico (ano) para reinvestir na própria empresa/atividade, para assim aumentarem a capacidade de gerar mais rendimento no futuro.

Existe também a possibilidade de investirmos numa determinada empresa que ainda não consegue gerar lucro, ou seja, no final do ano, as vendas são inferiores aos custos, originando assim prejuízo em vez de lucro. Faz sentido investirmos numa empresa que ainda não deu provas de conseguir gerar lucro? Sim, caso a área de negócio da empresa seja inovadora e que antecipamos que brevemente a empresa conseguirá gerar rendimento suficiente para compensar os seus acionistas. Temos o exemplo da Amazon que demorou muitos anos até conseguir gerar lucros da sua atividade.

 

Como se distribuem os dividendos pelos acionistas?

Vamos imaginar um bolo gigante, esse bolo representa a empresa. O bolo é dividido em milhares de pequeníssimas fatias, cada fatia representa uma parte do bolo (ou seja, da empresa), a essa pequena parte do bolo chamamos ação. Quanto mais fatias tiver desse bolo, maior será a sua participação na empresa.

Imaginemos agora que esse bolo está dividido em 1.000 fatias, e que a empresa num determinado ano gerou 10.000€ de lucro. Em assembleia geral é decidido reinvestir 50% desse lucro na empresa, e os restantes 50% serão distribuídos, no ano seguinte, pelos seus acionistas sobre a forma de dividendos. Assim, por cada ação será distribuído 50% de 10€, ou seja 5€. Se tiver 20 ações dessa empresa, receberá 100€ (5€ x 20) de dividendos num determinado ano.

As empresas definem também qual a periodicidade para o pagamento de dividendos aos seus acionistas, poderá ser mensal, trimestral, semestral ou anual. Usando o exemplo acima, se a empresa paga dividendos trimestralmente, significa que em cada trimestre os acionistas poderão receber 1,25€ de dividendos por ação que detenham.

 

Deve a empresa distribuir 100% dos seus lucros?

Na minha opinião não. Certamente não quererá ser sócio de uma empresa que não tenha uma estratégia de gestão a pensar no futuro, na inovação e na melhoria contínua. Apesar de o objetivo principal dos sócios de uma empresa ser a obtenção de lucro, não é sustentável não ir alimentando a galinha dos ovos de ouro. É necessário um planeamento estratégico, que tenha como principal premissa uma gestão do negócio sustentável, e que ao longo dos anos possa criar mais valor para os clientes, colaboradores, acionistas e sociedade em geral. Assim, o mais comum é as empresas distribuírem anualmente uma parte dos seus lucros, e reinvestir a restante na sua capacidade produtiva, ou em melhorias que possam colocar a empresa mais bem preparada para os desafios futuros (por exemplo: aquisição de empresas concorrentes, abertura de novas unidades de negócio, expansão da sua capacidade produtiva, automatização, melhoria de processos, etc.).

 

Como identificar empresas que pagam bons dividendos?

Para avaliarmos quais as empresas que pagam bons dividendos, podemos recorrer à ajuda de alguns indicadores/rácios, que nos dão informações valiosas sobre o posicionamento de uma determinada empresa sobre os dividendos que as suas ações permitem obter.

 

1 – Dividend yield. O dividend yield calcula-se dividindo os dividendos pagos por ação pelo preço da ação. O resultado deste rácio é uma percentagem, que indica o rendimento que o acionista irá obter sob a forma de dividendos. Por exemplo, para uma ação que custe 50€ se o dividendo por ação num determinado ano for de 2€, então o dividend yield será de 4% (2€/50€).

No entanto, este é um indicador que nunca poderá ser analisado de forma isolada. Um dividend yield elevado, por si só não é um sinal indicador de que estamos a fazer uma boa escolha. Poderá acontecer de não ser sustentável para a empresa suportar o montante de dividendos que está a distribuir. Assim importa adicionarmos outros indicadores à nossa análise.

 

2 –Payout Ratio. Este rácio diz-nos qual a percentagem dos lucros que será distribuída pelos acionistas.  Ou seja, uma empresa com um Payout de 40%, distribui 40% dos seus lucros, e retém 60% para reinvestir na própria empresa.

Empresas com um Payout elevado ficam sem recursos financeiros para investir em si mesmas, e por essa razão tendencialmente (ou por norma) crescem menos do que as empresas que reinvestem mais em si próprias. Por outro lado, as empresas com um payout ratio baixo, são empresas que podem crescer a taxas superiores. Vejamos o exemplo da Apple, em 2020 o payout estimado da empresa é de 24%, sendo que só recentemente (em 2013) é que a empresa começou a pagar dividendos aos seus acionistas, no entanto, o payout ratio é relativamente baixo, oscilando entre 22.3% em 2015 e 28,5% em 2014. A empresa prefere reinvestir os lucros na expansão da atividade, e tem conseguido aumentar consideravelmente o seu valor intrínseco, e isso tem se refletido na boa performance da empresa, e como consequência as ações da Apple têm se valorizado significativamente ao longo dos anos.

 

3 – Earnings per Share (ou Resultado por Ação ou Lucros por Ação). Este rácio é calculado dividindo o resultado líquido pelo número de ações de uma empresa. O EPS (Earnings per Share) dá uma indicação do montante que cada investidor ganha por ação.

Voltando ao exemplo da Apple, e analisando o EPS dos últimos 10 anos verificamos que a empresa tem conseguido aumentar os lucros por ação ao longo dos anos.

 

 

É importante ainda destacar que analisar a média dos valores, nos últimos anos, destes 3 indicadores, permite-nos perceber se existe algum padrão, ou se por outro lado, os valores são muito voláteis. Também conseguimos apurar se no momento atual (ou seja, no momento que estamos a analisar) a empresa está barata ou cara fase ao passado.

Existem outros indicadores que devemos juntar à análise para compreendermos se uma determinada empresa é boa pagadora de dividendos, no entanto, e para o artigo não ficar demasiado longo, selecionei apenas estes 3, por achar que são fáceis de analisar e interpretar e por representarem também uma informação de fácil acesso aos investidores. Apesar desta simplificação, apenas para efeitos expositivos, é muito importante analisarmos também o endividamento da empresa, comparativamente com o dinheiro em caixa, uma vez que um elevado endividamento poderá colocar em causa a continuidade e sustentabilidade da política de dividendos da empresa e até a continuidade da atividade.

 

Impostos e taxas sobre os dividendos?

Os dividendos, tal como as mais valias sobre a venda de ações, estão sujeitos em Portugal ao pagamento de uma taxa de 28% sobre o valor (rendimentos de capitais). No caso dos dividendos, ao contrário das ações, o imposto é retido pelo banco ou corretora, que entrega o valor do imposto diretamente às finanças. Se utilizar um intermediário financeiro português, sabe que quando o valor dos dividendos é depositado na sua conta, este corresponde ao valor líquido.

Se utilizar um intermediário financeiro com sede fora de Portugal o valor retido poderá ser diferente dos 28%, e nesse caso o acerto é feito em sede de IRS (mas não de forma automática). Ainda poderá existir dupla tributação, ou seja, o banco/corretora faz a retenção do imposto em Portugal (28%) depois de os dividendos já terem sido tributados à taxa do país de origem (exemplo EUA), nesse caso, o acerto fiscal também será feito em sede de IRS, mas também não é de forma automática.

Relativamente a taxas, e dependendo do banco ou corretora que utiliza, poderá ainda ser-lhe descontado um valor fixo ou percentual sempre que existir o pagamento de dividendos. É muito importante conhecer de antemão quais as taxas que o seu banco irá cobrar para processar os dividendos, para que depois não seja surpreendido, pelo seu banco ganhar mais do que você com os dividendos das suas ações.

 

Algumas vantagens em investir numa estratégia de dividendos:

  • Possibilidade de reinvestir o dividendo e aumentar dessa forma a participação na empresa.
  • Possibilidade de ter uma renda fixa regular.
  • Menor volatilidade nos preços das ações que pagam bons dividendos. Indicado para uma estratégia mais conservadora.
  • Mesmo o mercado estando em queda, continuará a ganhar dinheiro através dos dividendos.
  • Etc.

 

Algumas desvantagens em investir numa estratégia de dividendos:

  • Limita significativamente o campo de atuação na pesquisa de ações e dessa forma afasta provavelmente outras cotadas que podem apresentar maior potencial de valorização.
  • Possibilidade de dupla tributação, o que requer especial atenção por parte dos investidores de forma a obterem eficiência fiscal.
  • Etc.

 

Conclusão

Não existe uma estratégia correta ou errada de se investir na bolsa de valores. A estratégia focada nos dividendos é muito interessante para investidores mais avessos ao risco, ou que privilegiam rendimentos regulares. Poderá também ter uma estratégia mista, ou seja, investir tanto em empresas que pagam bons dividendos, como em empresas em fase de crescimento, que se espera que venham a valorizar no futuro, mas que ainda não são rentáveis, ou que optem por reinvestir, na própria empresa, todo o seu lucro.

 

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