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Como diversificar corretamente os investimentos

Todos nós já ouvimos muitas vezes, nas mais diversas áreas da nossa vida, a expressão “não coloque todos os ovos na mesma cesta”, no entanto, é também verdade que não devemos colocar alguns dos nossos ovos em cestas que não sejam as mais apropriadas. Mais importante do que diversificar os nossos investimentos é compreendermos que devemos fazer uma diversificação correta. O objetivo deste artigo é refletirmos sobre a importância de fazermos uma correta diversificação dos nossos investimentos, de acordo com o nosso nível de risco e também como forma de potenciarmos o retorno dos nossos investimentos sem comprometermos a sustentabilidade e rentabilidade da nossa carteira de investimentos.

Sem mais demoras, saiba como diversificar corretamente os investimentos!

 

Qual o verdadeiro significado de diversificação dos investimentos?

De uma forma simples de entender a diversificação dos investimentos consiste em alocarmos o nosso capital investido por diferentes classes de ativos, que terão níveis de risco e rentabilidades distintas e por vezes não correlacionadas.

O nível de diversificação que cada investidor deve adotar estará muito dependente de fatores pessoais, como o perfil de risco e o tempo que pretende manter o dinheiro investido, e também com questões de mercado, nomeadamente as perspetivas macroeconómicas, como por exemplo das taxas de juro e do crescimento económico.

Este conceito surgiu na década de 50 do século passado, através de Harry Markowitz e da sua teoria de portefólio moderna (MPT – Modern portfolio theory). Grosso modo, na sua teoria Harry Markowitz, demonstra que um investidor pode construir um portfólio de múltiplos ativos que maximizará os retornos para um dado nível de risco. Esta teoria tem alguns defensores de peso, nomeadamente os investidores Warren Buffett e Benjamin Graham.

 

Porque diversificar importa?

Não há dúvidas de que ter uma carteira de investimentos diversificada é um dos princípios que todos os investidores devem manter, e que no longo prazo poderá evitar alguns dissabores. Existem vários motivos que fazem da diversificação uma boa estratégia.

Enumero algumas razões, que no meu ver, aumentam consideravelmente a probabilidade de sermos bem-sucedidos nos investimentos, quando diversificamos os nossos investimentos. São elas:

 

  1. A diversificação permite mitigar riscos e garantir uma boa rentabilidade no médio e longo prazo. Este é talvez o motivo principal, pelo qual devemos ter uma carteira de ativos diversificada. Existem, como sabemos, alguns ativos que ao longo dos anos têm demonstrado ser mais rentáveis do que outros, como é o exemplo das ações face às obrigações, no entanto, as ações são também um tipo de investimento mais volátil e com um maior risco de perda do capital investido. Assim, e como forma de garantir alguma estabilidade dos investimentos, faz sentido, abdicar de um pouco da rentabilidade estimada pela “certeza” de um rendimento menos volátil e com menores riscos de perda do capital. Não nos esqueçamos também, de que o futuro é uma incógnita, e que os ganhos passados não são garantias de ganhos futuros. Quando analisamos o passado, estamos apenas a olhar para o retrovisor, sendo o que nos espera um pouco mais à frente pode ser bem diferente. Nunca o saberemos, e assim, será sempre melhor jogar pelo seguro, investindo em ativos de diferentes classes, algumas das quais não correlacionadas.

 

  1. Permite procurar novas oportunidades de investimento. Pelo simples facto de queremos alocar o nosso capital a diferentes classes ou dentro da mesma classe a diferentes entidades, estamos abertos a procurar oportunidades de investimento promissoras. Estudamos novos setores, novas empresas e até novos ativos, que antes eram totalmente desconhecidos, ou estavam fora do nosso círculo de competências. Quando embarcamos nessa procura constante, deparamo-nos muitas vezes com opiniões contrárias à nossa, ou simplesmente conhecemos novas abordagens, nas quais nos podemos inspirar para melhorar as nossas competências enquanto investidores e caçadores de bons negócios. A diversificação, desde que não seja em demasia, torna-nos melhores investidores e aumenta a nossa sensibilidade para reconhecermos novas oportunidades de investimentos.

 

  1. Maior comodidade para a nossa vida. É certo que muitos de nós investidores, fazemo-lo por prazer, porque queremos alcançar a nossa independência financeira (parcial ou total) ou simplesmente porque queremos ter fontes de rendimento distintas da nossa atividade profissional. Assim, a diversificação traz alguma comodidade à nossa vida. Ao investirmos em ativos de rendimento fixo e com pagamentos periódicos de juros, como as obrigações e depósitos a prazo, garantimos que de tempos em tempos temos rendimentos dessas aplicações a serem-nos pagas, e dessa forma temos a comodidade para decidir se queremos reinvestir o valor, usar para fazer face a alguma despesa de última hora ou simplesmente para nesse mês permitirmo-nos uma extravaganciazinha. Por outro lado, investirmos em empresas pagadoras de dividendos, aporta também alguma liquidez à nossa carteira de investimentos, que poderá ser usada para aproveitar novas oportunidades de investimento ou simplesmente para trazer algum conforto às nossas finanças.

 

Diversificar com pouco dinheiro, sim ou não?

A diversificação acarreta custos e por essa razão a resposta e esta pergunta, na minha opinião, é não. Quando estamos a falar de carteiras de investimentos muito pequenas, as taxas pagas às corretoras podem deteriorar de forma significativa as nossas mais valias, fazendo com que os proveitos retirados da diversificação não sejam suficientes para cobrir as perdas provocadas pelo custo dessa estratégia.

Atualmente temos corretoras como a DEGIRO que cobram taxas muito reduzidas, face aos valores que eram praticados há poucos anos, no entanto, continua a ser muito importante percebermos quais os custos que teremos por investirmos num novo mercado, ou num novo ativo. Apesar dos custos mais baixos, quando estamos a falar de carteiras muito pequenas, a compra de um novo título poderá ter um impacto significativo.

Por exemplo, há uns anos, penso que em 2013, quando ainda estava nos inícios da minha jornada de investidora em bolsa, decidi comprar 10.000€ de obrigações da Bial que na altura cotava abaixo do par. O objetivo que eu tinha em mente, era comprar as obrigações e quando estivessem a cotar ao par vendia. O que eu não sabia era que o banco que eu na altura utilizava em exclusivo (Banco Big) cobrava 25€ por cada ordem de compra e outros 25€ por cada ordem de venda de obrigações. Posto isto, fiz o negócio e fui surpreendida com as taxas avultadas que tive de pagar. Se estimava obter um rendimento de 4% naquele ano, vi as mais valias serem reduzidas para 3.5%, ou seja, vi a minha rentabilidade reduzida em 12.5%. Usando este exemplo, fazia sentido se em vez de ter feito apenas uma operação desta natureza, tivesse decidido fazer duas ou mais operações em empresas distintas, mas com os mesmos 10.000€? Claro que não fazia sentido, porque iria ver a minha margem de lucro reduzida substancialmente. Os proveitos que poderia retirar da diversificação não iriam ser suficientes para cobrir os custos com as operações.

 

As 5 regras para uma boa diversificação

Ao longo deste artigo já falámos sobre o verdadeiro significado de diversificação dos investimentos, enumeramos alguns motivos pelos quais o devemos fazer e ainda respondemos à questão se devemos ou não diversificar quando temos pouco dinheiro investido.

A pergunta que ainda falta responder é: qual a forma mais indicada para diversificar os nossos portefólios?  Irei responder a esta questão explicando aquilo que considero ser as 5 regras da diversificação nos investimentos. Investindo segundo estes pilares irá permitir não nos expormos em demasia a determinados riscos, setores, ativos, moedas ou geografias.

 

1 – Diversificar os investimentos entre várias classes de ativos:

Dependendo do seu perfil de investidor, e nível de aversão ao risco, deve dividir os seus investimentos, por diferentes classes de ativos, como por exemplo: ações, obrigações, fundos de índice (ou Exchange Trade Funds), fundos de investimento, REITs (Real Estate Investment Trust), depósitos a prazo, etc. Quando estamos expostos a vários tipos de ativos, beneficiamos do facto de terem níveis de risco e rentabilidades distintas, e muitas vezes com comportamentos em sentidos opostos.

 

(Sugestão: Para saber mais sobre risco sistémico vs risco não sistémico leia este artigo)

 

2 – Diversificar os investimentos dentro da mesma classe de ativos:

No que diz respeito à diversificação dentro da mesma classe, nada mais é do que deter, por exemplo, ações de várias empresas, e não apenas de uma, de forma a não se expor em demasia aos riscos de uma determinada área de negócio ou empresa. Se investir em Fundos Imobiliários Americanos (REITS) o ideal é dispersar o seu capital por vários fundos, geridos por entidades distintas e com estratégias diferenciadas. Julgo que já compreendeu a ideia 😊

 

(Sugestão: Para saber mais sobre como analisar uma ação leia este artigo)

 

3 – Diversificar demograficamente e entre moedas diferentes

É importante diversificar por várias geografias e moedas, como por exemplo, não deter apenas ações do PSI20 ou apenas do mercado americano. Nunca sabemos o que poderá acontecer a estas economias. A título de exemplo o mercado Japonês (Nikkei 225) iniciou em 1999 um ciclo de quedas, que passados mais de 20 anos, ainda está longe dos máximos registados em 1989. Durante todo este período os investidores ainda não conseguiram recuperar das suas perdas.

 

4 – Diversificar no tempo

A diversificação no tempo, consiste em alocar periodicamente, à sua carteira de investimentos, novo capital, de forma a aproveitar novas oportunidades de investimento, de acordo com os movimentos do mercado, por exemplo fazendo reforços mensais.

Outra forma de diversificar no tempo é não investir uma grande quantia de capital todo de uma só vez, por exemplo, se tiver 20.000€ para investir, talvez não seja uma boa opção investir todo esse valor ao mesmo tempo, deverá definir um período temporal e alocar o capital de acordo com a periodicidade que definiu.

 

5 – Diversificar apenas entre as classes de ativos que consegue compreender

Uma regra basilar que todos os investidores devem seguir é não investir em ativos que não consegue compreender ou não investir em empresas para as quais não consegue entender o modelo de negócio ou setor de atividade. A diversificação é importante, no entanto, deve estar confinada apenas ao nosso nível de compreensão. Se seguíssemos esta regra à risca, acredito que conseguiríamos dormir descansados, sabendo que o nosso dinheiro está em boas mãos.

Nos últimos anos o investimento em cripto moedas tem sido muito debatido e representa a escolha de muitos investidores, que acreditam que as moedas digitais serão o futuro e a salvação para o atual sistema monetário. Já estudei e li muitas opiniões sobre este tipo de ativos, e continuo a não me sentir confortável em colocar o meu dinheiro em cripto moedas, por um lado por não acreditar que o caminho para a “salvação do sistema monetário” seja esse, por outro por considerar a tecnologia associada às moedas digitais demasiado complexa para o meu nível de entendimento sobre o assunto. Assim, nunca investi neste tipo de ativos, e acredito que não o irei fazer no curto/médio prazo, por não saber avaliar o investimento.

 

Conclusões

A diversificação pode assumir vários níveis, e por essa razão é importante assegurarmo-nos que os nossos investimentos não estão demasiado concentrados em determinadas empresas, indústrias, geografias ou tipo de ativos. Apesar de a diversificar ser uma regra muito importante na gestão do risco dos portfólios, tem ainda mais relevância investir apenas em ativos que consegue compreender.

 

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