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Como combater o medo de uma correção ou queda no preço das ações

Um dos maiores medos dos investidores, há menos tempo no mercado, é o receio de uma correção ou queda do mercado (‘Crash’), e com isso verem o valor dos seus portefólios de investimento diminuírem de forma abrupta “de um momento para o outro”.

Sabemos que a tendência dominante do mercado é de expansão/crescimento, no entanto, as crises fazem parte dos ciclos do mercado e por essa razão é muito importante estarmos devidamente preparados para as correções e quedas do mercado, que podem chegar a qualquer momento.

Um novo investidor quando decide investir numa determinada empresa ou setor, tem a expectativa de vir a lucrar com isso. Muitas vezes, está tão otimista porque “todos” estão a ganhar dinheiro e entra no mercado quando os preços já estão demasiados altos. Como a expectativa e a motivação é a de ganhar algum dinheiro, quando os preços dos seus investimentos começam a cair, instala-se o pânico, e tenta sair do mercado antes que o seu prejuízo seja maior. Esta é uma reação de fuga, comportamento normal do ser humano perante uma situação de perigo e incerteza. No entanto, este comportamento é responsável por muitos dissabores, no que diz respeito à experiência de muitos investidores no mercado de ações.

Por outro lado, os investidores que estão há mais tempo no mercado, têm o sentimento contrário, e quando ocorrem as correções e as quedas nos preços dos ativos, que têm de baixo de olho, esse representa o momento há muito aguardado, para encher as suas prateleiras de investimentos com ótimos ativos e com descontos generosos.

Assim, importa saber que estratégias ou conhecimentos podemos usar para combater o medo de uma correção, ou queda do preço das ações.

 

 

Antes de avançarmos com algumas estratégias, deixo uma pequena nota explicativa sobre a diferença entre correção e bear market:

Quando o mercado cai pelo menos 10% desde o seu pico, designamos por correção. Quando o mercado cai pelo menos 20% desde o seu pico, designamos por bear market.

Introduções feitas, agora sim, vamos ao mais importante. Selecionei 3 estratégias ou conhecimentos, que devemos deter para combatermos o medo de uma correção ou queda no preço das ações.

 

1 – Capacidade de reconhecer padrões no mercado

A capacidade para reconhecer padrões é uma das principais características que qualquer empreendedor que pretenda ser bem-sucedido deve desenvolver. Assim que tenhamos essa capacidade, podemos adaptar a nossa estratégia, utilizá-la a nosso favor e assim lucrar com esse facto. É ainda importante conseguirmos encontrar uma estratégia vencedora e permanecermos fiéis a essa estratégia, para que as probabilidades joguem a nosso favor.

Tendo como referência o mercado Americano, irei enumerar alguns padrões que os investidores poderão identificar na bolsa de valores no último século.

 

Facto n.º 1: Em média existe uma correção no mercado uma vez por ano

As correções fazem parte do mercado. Analisando o que a história nos conta, sabemos que o tempo médio de uma correção é de 54 dias. Em média nos últimos 100 anos, as correções registadas no mercado são de 13,5%.

 

Facto n.º 2: Menos de 1/5 das correções tornam-se efetivamente num bear market.

Isto significa que 80% das correções não são convertidas num bear market, ou seja, são apenas um mecanismo normal para trazer os preços para valores mais próximos das expectativas dos investidores.

 

Facto n.º 3: A tendência dominante do mercado é de crescimento.

Estudos realizados ao comportamento do S&P500, indicam que nos últimos 40 anos, o mercado teve um retorno positivo em cerca de 75% dos anos. Isto significa que 25% dos anos o retorno foi negativo. Devemos por isso, estar preparados e encarar com alguma normalidade, quando vemos o nosso portefólio de investimentos perder algum valor, uma vez que as correções fazem parte das regras do jogo.

 

Facto n.º 4: Historicamente a cada 3-5 anos, ocorre um novo bear market.

O passado não se repete tal e qual, no entanto, oferece uma boa perspetiva sobre o ritmo a que estes eventos podem ocorrer. Algo que temos como garantia é que os mercados de baixa (bear market) continuarão a ocorrer, independentemente da nossa vontade.

 

Facto n.º 5: O pessimismo precede o otimismo e o otimismo precede o pessimismo.

O mercado move-se em ciclos, um período negativo (bear market) antecede um período positivo (bull market) completando assim um ciclo de mercado.

 

Facto n.º 6: O maior perigo é estar fora do mercado

Ninguém consegue prever os movimentos do mercado de forma consistente, mesmo assim, alguns investidores tentam adivinhar os topos e os fundos do mercado, saído do quando acreditam que o topo já foi alcançado e entrando quando julgam que o fundo já aconteceu. O que acontece a estes investidores, caso as suas previsões não estejam corretas, é perderem movimentos de subida muito fortes.

Um estudo realizado pela J.P. Morgan, conclui que 6 dos melhores 10 dias do mercado, nos últimos 20 anos, ocorreram no espaço de 2 semanas. Isto significa que se vender no momento errado, poderá perder todo um movimento de subida, que normalmente é aproveitado pelos investidores mais pacientes. Por outras palavras, a queda do mercado não deve ser algo a temer, mas sim uma ótima oportunidade para potenciar os seus ganhos. Se estiver fora do mercado nestes dias, não conseguirá alcançar todo o potencial de valorização do mercado.

 

2 – Ter um portefólio devidamente diversificado

A segunda estratégia para combater o medo de uma correção ou queda no preço das ações é deter um portfólio de investimentos corretamente diversificado.
No que diz respeito a uma correta diversificação dos investimentos, nas próximas semanas irei publicar um artigo completo para o efeito, no entanto, importa agora perceber de que forma a diversificação dos nossos investimentos, é importante para minimizarmos os riscos associados a uma queda ou correção no valor dos nossos investimentos.

 

(Sugestão: Para saber mais sobre risco sistémico vs risco não sistémico leia este artigo)

 

Na sua essência, a diversificação é praticamente o mesmo que dizer “não coloque todos os ovos na mesma cesta”. Existem 4 formas importantes para diversificar os nossos investimentos, de forma a não nos expormos em demasia a determinados riscos, setores, ativos, moedas ou geografias.

 

A – Diversificar os investimentos entre várias classes de ativos:

Dependendo do seu perfil de investidor, e aversão ao risco, deve dividir os seus investimentos, por diferentes classes de ativos, por exemplo: Ações, Obrigações, Fundos de Índice (ou Exchange Trade Funds ), Fundos de Investimento, REITs (Real Estate Investment Trust), Depósitos a Prazo, etc.

 

B – Diversificar os investimentos dentro da mesma classe de ativos:

No que diz respeito à diversificação dentro da mesma classe, nada mais é do que deter, por exemplo, ações de várias empresas, e não apenas de uma, de forma a diversificar potenciais riscos. Se investir em Fundos Imobiliários Americanos (REITS) o ideal é dispersar o seu capital por vários fundos. Julgo que já compreendeu a mensagem 😊

 

C – Diversificar demograficamente e entre moedas diferentes

É importante diversificar por várias geografias e moedas, como por exemplo, não deter apenas ações do PSI20 ou apenas do mercado americano. Nunca sabemos o que poderá acontecer a estas economias. A título de exemplo o mercado Japonês (Nikkei 225) iniciou em 1999 um ciclo de queda, e passados mais de 20 anos, ainda está longe dos máximos registados em 1989. Durante todo este período os investidores ainda não conseguiram recuperar das suas perdas.

 

D – Diversificar no tempo

A diversificação no tempo, consiste em alocar periodicamente, à sua carteira de investimentos, novo capital, de forma a aproveitar novas oportunidades de investimento, de acordo com os movimentos do mercado. Outra forma de diversificar no tempo é não investir uma grande quantia de capital todo de uma só vez, por exemplo, se tiver 20.000€ para investir, talvez não seja uma boa opção investir todo esse valor ao mesmo tempo, deverá definir um período temporal e alocar o capital de acordo com a periodicidade que definiu.

 

3 – Registar os motivos pelo qual fez determinado investimento.

Em momentos de incerteza, como o que estamos agora a viver, devido ao Covid-19, é importante ter sempre à mão os fundamentos, que estiveram por detrás da sua opção de investimento. Se os fundamentos do investimento ainda se mantiverem, mesmo que o preço do título não reflita o verdadeiro valor, não existe nenhuma razão para nos desfazermos dele.

É muito importante mantermos esse registo. Sempre que investimos num novo ativo, devemos registar toda a informação que recolhemos e que nos fez decidir investir nesse título. Em momentos de pânico generalizado, este procedimento pode ser a nossa bóia de salvação, para nos mantermos vivos e fiéis à nossa estratégia de investimento.

Eu, desde que comecei a investir, mantenho um diário de investimentos, onde registo os momentos de maior incerteza e volatilidade. Sempre que me apercebo de movimentos bruscos no valor dos meus investimentos (sejam de subida ou descida) registo-os no diário. Periodicamente volto ao meu diário de investimentos e recordo todos esses episódios, para que a minha memória não me pregue uma partida e apague-os.

 

Conclusões

É importante reconhecermos que as correções e as quedas no mercado de ações fazem parte das regras do jogo. Para os investidores de longo prazo a queda dos preços representa muitas vezes as melhores oportunidades de investimento. Assim, quando os tempos mais difíceis chegarem, não há motivo para temer.

É assim muito importante reconhecemos a existência de padrões no comportamento do mercado, termos um portefólio corretamente diversificado e de acordo com o nosso perfil de tolerância ao risco e por fim, sabermos quais os motivos que nos fizeram investir num determinado ativo.

 

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