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Como analisar uma ação em 6 passos

Como analisar uma ação? Esta é uma questão chave para o sucesso no mundo dos investimentos financeiros. Decidir qual ação a comprar é o mesmo que decidir em que negócio/empresa quer ser sócio, de preferência durante muitos e muitos anos (se tudo correr bem).

Não existe uma só forma de analisar uma ação, no entanto, podemos destacar alguns passos essenciais para avaliar se deve ou não investir numa determinada empresa.

Ao longo do tempo, tenho adicionada e revisto algumas das métricas que utilizo para selecionar uma ação, pelo que este é um processo dinâmico, no entanto, existem 6 questões essenciais, que na minha opinião devem ser cuidadosamente analisadas pelos investidores, antes de avançarem com a compra de ações de uma determinada empresa.

Sem mais demoras, conheça quais os rácios ou indicadores que condicionam/influenciam as minhas opções de investimento.

 

1 – Qual a perceção que tem sobre o negócio no longo prazo

Eu pessoalmente, tenho como regra deter uma ação em carteira no mínimo durante 2 anos, mas o objetivo é deter por muito mais tempo. Esta regra surge, como forma de me disciplinar a analisar cuidadosamente uma empresa antes de decidir investir.  Caso não faça corretamente o trabalho de casa, terei de olhar para a minha posição durante 2 anos, mesmo que esteja a incorrer em perdas. Assim, garanto que a lição foi bem aprendida.

A primeira triagem que faço a uma empresa, é perceber qual a perceção que eu tenho em relação ao negócio que é desenvolvido. Esta é uma análise muito simples, na qual respondo às seguintes 3 questões:

  • O negócio existirá daqui a 10 anos?
  • Trata-se de um produto/serviço difícil de replicar e muito superior ao da concorrência?
  • A marca da empresa ou dos seus produtos é valiosa, e está a ser bem trabalhada?

Se as respostas a estas três questões forem convincentes, então é o momento de analisar qual a rentabilidade do negócio.

 

2 – Analisar a rentabilidade do negócio

As empresas existem porque têm a forte convicção de conseguirem gerar lucros generosos para os seus acionistas, se assim não fosse, quais os incentivos que existiriam para a inovação, produtividade e eficiência das empresas?

Assim, quanto mais rentável uma empresa for tanto melhor para os seus investidores, sendo que a premissa essencial para garantir uma rentabilidade satisfatória é produzir o máximo de lucro como o mínimo de capital possível.

Existem vários rácios e indicadores que transmitem a informação do quanto uma empresa é lucrativa. Não querendo ser demasiado extensiva neste ponto, seleciono o ROE como o indicador mais rápido e fácil de interpretar para aferir a rentabilidade de um negócio.

ROE (Return on Equity) em português lucro sobre o capital próprio calcula-se da seguinte forma:

ROE = Resultado líquido / Capital próprio

Este rácio indica-nos como os gestores estão a saber fazer crescer o capital próprio, e dessa forma o valor intrínseco da empresa. Idealmente eu procuro empresas com um ROE acima dos 10% ao ano.

 

3 – Qual o potencial de crescimento para os próximos anos

É muito importante refletir também sobre as perspetivas económicas da empresa nos próximos anos, sabendo que o setor onde a empresa opera e a geografia onde está inserida influenciam de forma significativa o crescimento das operações. Assim, interessa analisar e refletir sobre…

  1. Qual a perspetiva de crescimento/evolução da atividade económica na geografia em que a empresa está inserida ou com a qual se relaciona? Por exemplo, se o principal mercado de uma determinada empresa é o Chinês, interessa compreender quais as perspetivas económicas para os próximos anos para a China. Irá continuar a crescer? Prevê-se uma retração da atividade económica? Etc.
  2. O segmento de mercado em que a empresa se insere tem boas perspetivas de crescimento? Pelo lado negativo podemos ter as empresas de tabaco, uma vez que tem diminuído o número de fumadores, ou as empresas ligadas a energias não renováveis, considerando a forte tendência para o consumo de energias limpas. Pelo lado mais otimista temos as empresas produtoras de equipamentos eletrónicos, uma vez que o uso deste tipo de produtos continua a aumentar substancialmente.
  3. Por último, qual o potencial de crescimento da empresa dentro do seu mercado (Market Share)? Exemplo a Apple quando lançou o primeiro iPhone em 2007.

 

4 – Analisar os Riscos do Negócio

Conhecer os riscos que estão associados a um determinado negócio, é um passo essencial para compreender a envolvência e os fatores que determinam o sucesso (ou não) de um determinado setor de mercado, ou de uma empresa em específico.

Nos relatórios anuais das empresas, encontrará um capítulo dedicado a esta temática, onde as empresas identificam todos os riscos que antecipam influenciar a sua atividade. O investidor deve ler cuidadosamente, e mesmo assim se achar que os riscos não são suficientemente alarmantes, poderá equacionar investir na empresa.

Deve estar também ciente de que quanto maior forem os riscos associados a um determinado negócio, maior será a volatilidade registadas nas receitas e nos lucros, por isso é importante olhar para o passado e ver de que forma se têm comportado estas duas métricas.

Ainda sobre os riscos do negócio é muito importante que a empresa tenha um balanço sólido, com pouca dívida, de forma a que tenha a capacidade para aguentar os momentos mais difíceis. Um indicador interessante para medir a solidez da empresa é o Debit/Equity Ratio que mede o peso que a dívida tem sobre o capital próprio da empresa. O ideal é que este valor seja inferior a 0.5, o que significa que para 10€ em capital próprio a empresa deve ter apenas 5€ em divida.

Pode haver exceções para este rácio? Claro que sim. Por exemplo, se empresa estiver a preparar uma serie de novos investimentos, como a construção de novas unidades industriais poderá temporariamente contrair alguma dívida para fazer face a esses investimentos.

 

(Sugestão: Para saber mais sobre risco sistémico vs risco não sistémico leia este artigo)

 

5 – Avaliação da empresa

Esta não é uma tarefa simples, principalmente para os investidores com poucos conhecimentos em finanças, contabilidade e gestão de empresas, no entanto, podem ser usados alguns indicadores que com menos esforço nos podem dar uma perspetiva do valor atual da empresa versus o valor a que a empresa (ações) estão a ser transacionadas no mercado.

Para termos uma visão geral se a empresa está subavaliada ou sobreavaliada, podemos por exemplo analisar os seguintes indicadores:

  • Price/Earnings: preço sobre os lucros. Por exemplo, para uma empresa com um P/E de 15, sabemos que por cada 15€ gastos a comprar uma ação, esperamos receber 1€ de lucro um ano depois.
  • Dividend Yield: é calculado dividindo o valor do dividendo por ação pelo preço da ação. Para um Dividend Yield de 4%, se tudo se mantiver constante, receberemos, anualmente, 4% do nosso investimento sobre a forma de dividendos.
  • Payout Ratio: Este rácio permite aos investidores obter a informação sobre qual a percentagem dos lucros anuais que são distribuídos em forma de dividendos, e qual a percentagem que é retida para reinvestir na atividade, liquidar dividas ou fazer reservas de caixa. Assim, para um Payout Ratio de 25%, significa que a empresa distribui 25% dos lucros pelos acionistas e reinveste 75% na atividade da empresa.
  • Price/ Book Value: mede a relação entre o preço a que uma ação está a ser transacionada pelo valor contabilístico da ação.
  • Price/ Sales: o preço sobre as vendas, é um múltiplo muito interessante, e cada vez, mais utilizado pelos investidores, em substituição do tão aclamado P/E. Este indicador dá-nos a informação sobre a que valor a empresa está a ser transacionada, comparativamente com as suas vendas anuais. Assim para um valor de 4, sabemos que a empresa está a transacionar ao valor de 4 vezes as suas vendas anuais.

 

6 – O preço a que compramos é importante

Analisando os quatro rácios/ indicadores, descritos no ponto anterior, conseguirmos ter uma pequena noção se a empresa está a muito cara ou barata, no entanto o preço a que compramos a ação importa e dita o sucesso do investimento.

Para tomarmos uma boa decisão de investimento, e termos uma ideia mais objetiva sobre o valor atual da empresa é ainda importante:

  • Analisar a média dos principais rácios. Por exemplo, devemos observar a média dos últimos 10 anos do Preço/Earnings da empresa e comparar com o valor atual. Está em linha com a média? ou abaixo? ou talvez muito acima?
  • Comparar os principais rácios com as empresas dos mesmo setor de atividade. Este é também um pouco importante para compreendermos como a empresa está avaliada quando comparamos com as suas principais concorrentes.

 

(Sugestão: Para saber mais sobre como combater o medo de uma correção ou queda no preço das ações, leia este artigo)

 

Conclusões

É importante reconhecermos que não existe apenas uma forma de analisar corretamente uma ação. Cada investidor deve escolher os pontos que considera cruciais, para que determinada empresa faça parte do seu portfólio de investimentos.

Os passos descritos neste artigo, são apenas alguns, e que poderão transmitir aos investidores, informações relevantes que fundamentem as suas opções de investimento.

Considero ainda importante, antes de decidirmos investir numa empresa, registarmos por escrito quais os fundamentos que nos levam a considerar o negócio interessante. Este registo, é muito importante nos momentos em que a direção do preço da ação vai no sentido oposto ao que prevíamos. Esta poderá ser apenas uma situação temporária, caso os fundamentos da empresa se mantenham, ou poderá ser um alerta de que um dos fundamentos que o levaram a investir na empresa já não existe.

 

 

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