Gastar bem

Como acabar com as dívidas (sem truques e fórmulas mágicas)

As dívidas representam um dos grandes obstáculos, para começarmos a investir. É certo que podemos (e devemos) criar o hábito de investir mesmo tendo alguma dívida, no entanto, é muito importante que as nossas dívidas estejam sob controle, e preferencialmente que não existam. Neste artigo vou explorar uma estratégia (passo a passo) para reduzir ou eliminar-mos as dívidas da nossa vida.

As nossas dívidas (na grande maioria dos casos) são consequência dos nossos hábitos de consumo, pelo que alterando os nossos hábitos, i.e., gastando menos do que o que ganhamos, iremos certamente acabar com as nossas dívidas. Podemos assim concluir que as nossas dívidas são um efeito colateral do nosso comportamento enquanto consumidores.

Depois de vários anos a estudar finanças pessoais, e de ter conhecido e explorado várias estratégias para acabar com as dívidas, decidi escrever este artigo, para partilhar com os leitores do blog, a minha visão e dicas sobre este assunto (por vezes tão complexo e delicado).

Nem sempre tive os conhecimentos necessários para me afastar de dívidas, e de resistir a alguns consumos excessivos, fruto da idade. Quando iniciei a minha jornada de investidora em bolsa, percebi que era necessário reformular um conjunto de hábitos, de forma a ter mais dinheiro disponível (sem sacrifícios) para poder investir e maximizar os meus resultados.

A condição inicial (e obrigatória) para acabarmos com as nossas dívidas é ganharmos mais do que aquilo que gastamos, e com esse excedente eliminarmos (ou reduzirmos) as nossas dívidas. Sem uma diferença positiva entre o que ganhamos (receitas) e os nossos gastos (despesas), nunca conseguiremos reduzir ou eliminar a nossa dívida. Pelo contrário, a dívida vai continuar a aumentar, até que um dia (muito provavelmente) iremos perder o controlo da mesma, o tão aclamado efeito bola de neve.

 

 

Porque devemos eliminar as dívidas da nossa vida?

Existem enumeras vantagens em vivermos livres de dívidas. Em termos financeiros podemos dizer que iremos poupar imenso dinheiro em juros e outros encargos com a dívida, podemos investir e multiplicar o nosso dinheiro, mas acima de tudo termos liberdade de escolha. Quando temos dívidas em excesso e compromissos financeiros mensais, sabemos que temos de manter um determinado nível de rendimento para conseguirmos cumprir com as nossas obrigações. Esse facto, por si só, é suficiente para retirar-nos flexibilidade, ou seja, parte da nossa liberdade financeira (espero não estar a ser demasiado dramática).

Para além das vantagens financeiras, não termos dívida permite:

  • Gerirmos melhor as nossas finanças pessoais. Quanto menos dívida e despesas tivermos, mais fácil será gerirmos as nossas finanças, o nosso dinheiro. Sempre que eliminamos uma dívida, estamos um passo mais à frente para termos as nossas finanças devidamente controladas e bem geridas.
  • Termos dinheiro disponível. Quando não temos de alocar parte dos nossos rendimentos mensais ao pagamento de dívidas, podemos usar esse dinheiro de uma forma muito mais prazerosa. Podemos viajar, ir ao cinema, jantar fora, ou qualquer outra atividade que nos encha a alma. A parte boa é que ao fazermos essas atividades, quando não temos dívidas agarradas, não vamos comprometer negativamente o nosso futuro. Estamos simplesmente a viver o presente.
  • Termos liberdade. Quando temos dívidas somos reféns do nosso trabalho. Ficamos mais condicionados, e por esse motivo não podemos correr demasiados riscos, como por exemplo investir num negócio próprio. Logo que as nossas dividas desaparecem, uma série de portas e possibilidades passam a estar novamente ao nosso alcance.
  • Uma vida mais tranquila. Talvez a maior vantagem seja mesmo esta, tranquilidade e paz de espírito. Quando devemos dinheiro a alguém, ou temos as prestações do carro, da casa, do último telemóvel, etc., vivemos pressionados e com receio de perdermos o nosso emprego (ou rendimentos) e com isso não sermos capazes de cumprir com as nossas obrigações financeiras. Mas quando nos livramos das dívidas, um sentimento de tranquilidade irá surgir novamente e estaremos mais disponíveis para viver o presente.

Estas são algumas das razões (certamente conseguirá identificar muitas mais) para nos livrarmos das dívidas, tão rápido quanto possível.

Uma dica muito interessante, que quero deixar, antes de passarmos para o próximo tópico é a importância de fazermos uma lista com os principais motivos pelo qual pretendemos acabar com as nossas dívidas. O que nos motiva? O que irá acontecer de bom na nossa vida sempre que eliminarmos uma dívida que nos anda a tirar o sono há muito tempo?

Para acabarmos com as nossas dívidas, temos de estar motivados e comprometidos com esse objetivo. Escreva a resposta a estas questões, e verá que a sua motivação irá despertar. De vez em quando, e para não perder o foco, volte a olhar para as suas respostas.

 

Os cinco passos para acabar de vez com as dívidas

Depois de termos identificado alguns dos extraordinários benefícios de reduzirmos ou eliminarmos as dívidas da nossa vida, vamos focar-nos nos passos essenciais para começarmos a reduzir as mesmas. Sem mais demoras, vamos agora conhecer quais os cinco passos que considero essenciais para acabarmos de vez com as nossas dívidas.

 

Passo 0 – Parar imediatamente de contrair mais dívida

Este passo é demasiado óbvio, pelo que não vou dispensar muito tempo em explicações. Se quer controlar, reduzir ou até mesmo acabar com as suas dívidas, não pode contrair mais nenhuma. Se queremos acabar com as dívidas, as palavras, créditos, prestações, facilidades de pagamento, etc., têm de ser eliminadas definitivamente do nosso vocabulário.

 

Passo 1 – Faça uma lista de todas as suas dívidas

Não é possível elaborarmos um plano ou uma estratégia para acabarmos com as nossas dívidas se não soubermos com precisão quanto é que devemos. Assim, o primeiro passo é listarmos todas as nossas dívidas numa tabela e irmos atualizando de acordo com os pagamentos/amortizações que vamos fazendo ao longo do tempo.

Na tabela que se segue encontra um exemplo dos dados que deve registar para saber quais são as suas dívidas e o que pode contar para o futuro.

A tabela é meramente exemplificativa, não dê demasiada importância aos valores, uma vez que são fictícios e os cálculos foram feitos em poucos segundos (e sem grande rigor).

Para além de registarmos as nossas dívidas, devemos ter a informação do valor da prestação mensal, da taxa de juro associada à dívida e do número de meses até terminar. Quando temos estes dados compilados será muito mais fácil compreendermos qual é o nosso esforço atual, e se conseguiremos aumentar o pagamento ou até renegociar a dívida. No exemplo acima, o esforço mensal atual é de 835€ (vamos supor que são as dívidas de um casal). O esforço da dívida dependerá obviamente do rendimento disponível. Sabemos também que uma das dívidas irá terminar nos próximos 10 meses, pelo que, posteriormente, poderá ser alocado esse valor ao pagamento de uma outra dívida já listada.

 

Passo 2 – Escolha qual a dívida que pretende liquidar em primeiro lugar

Depois de conhecermos todas as nossas dívidas temos de escolher qual a dívida que gostaríamos de liquidar em primeiro lugar.

Existem duas formas de o fazer:

  1. Pagar primeiro a dívida mais pequena, de forma a ficar com um número inferior de dívidas. No nosso exemplo seria a dívida “Empréstimo Irmão”. Este método é defendido pelo autor Dave Ramsey, que criou o “The Debt Snow Ball Plan”. Segundo o autor, devemos liquidar o montante mínimo mensal de cada dívida (valor da prestação) e utilizar o valor remanescente para liquidar as dívidas da mais pequena para a maior, de forma a reduzirmos o número total de dívidas. Este método traz benefícios psicológicos, uma vez que começamos a ver resultados de forma mais imediata.
  2. Um outro método seria pagar primeiro a divida com a taxa de juro mais alta. No nosso exemplo seria a prestação do carro. O objetivo é reduzir os encargos com os juros, e assim diminuir o valor total da dívida.

Ambos os métodos, para selecionar qual a primeira dívida a liquidar, no meu ver fazem sentido, e deve ser o leitor a escolher qual o método que considera ajustar-se melhor às suas dívidas e aos efeitos psicológicos que cada um dos métodos lhe irá proporcionar.

Depois de liquidar totalmente uma dívida, deve escolher qual a próxima a ser eliminada (Dica: deixe o crédito à habitação para o final).

 

Passo 3 – Negociar as dívidas

Para o caso de eventualmente estar com dificuldades em liquidar as suas dívidas, ou numa situação em que considere que consegue comprometer-se com um valor mensal mais elevado, tente renegociar as suas dívidas. Pode aumentar o valor da prestação mensal (ou reduzir consoante a sua realidade), negociar a taxa de juro e/ou o prazo para pagamento.

Ter a capacidade de negociar as suas dívidas é um passo essencial, e demonstrará que está comprometido em cumprir com as suas obrigações. Consoante o tipo de dívida, poderá beneficiar bastante de uma renegociação.

 

Passo 4 – Identificar a origem do dinheiro que irá utilizar para pagar as dívidas

Depois de ter uma lista com todas as suas dívidas, decidir qual irá liquidar em primeiro lugar e de tentar negociar as suas dívidas, é o momento de identificar a origem do dinheiro que irá utilizar para as pagar. Normalmente será o seu salário, a redução de determinadas despesas que irá libertar mais dinheiro, arranjar um part-time ou vender algumas coisas que tem em casa acumuladas e que já não usa, etc.

(Conheça algumas dicas de poupança neste artigo)

Neste passo é importante um pouco de criatividade. Olhe para os seus extratos bancários, identifique despesas que poderá reduzir ou mesmo cortar, que não façam uma diferença significativa na sua vida, e canalize esses montantes para amortizar as suas dívidas. Se não consegue reduzir despesas, pense em formas de ganhar mais dinheiro, vendendo o que já não usa, ou até fazer alguns trabalhos como freelancer para ganhar um dinheiro extra, todos os meses.

 

Passo 5 – Colocar o seu plano em ação

Se chegou até este passo, acredito que está mesmo muito comprometido em eliminar de vez as suas dívidas, no entanto, de nada lhe irá servir este conhecimento se não o colocar em ação.

Se já realizou todos os passos anteriores apresse-se em colocar o seu plano em ação e conquistar novamente a sua liberdade financeira.

 

Conclusão

Lembre-se, o objetivo não é ter um plano perfeito para terminar com as suas dívidas, o objetivo é entrar em ação o mais rápido possível, para poder beneficiar das vantagens de ter novamente o controlo das suas finanças.

Conheça as suas dívidas, decida qual a primeira a liquidar, negoceie as taxas de juro, e apenas comece. Poderá a qualquer momento afinar o seu plano, mas primeiro entre em ação.

 

 

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